“Temperança não se trata de desfrutar menos, mas sim de desfrutar melhor.
A temperança é essa moderação, pela qual permanecemos senhores de nossos prazeres, não seus escravos. (…) É um trabalho do desejo sobre si mesmo, que visa não superar nossos limites, mas respeitá-los.
Virtude ética, muito mais que moral, que é menos do âmbito do dever do que do bom senso.”
(…) “Santo Tomás bem viu que esta virtude, embora menos elevada que a prudência, a coragem ou a justiça, prevalece muitas vezes sobre elas, pela dificuldade. É que a temperança tem por objeto os desejos mais necessários à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são os mais fortes, e por isso mesmo mais difíceis de dominar.
Isso quer dizer que não se trata de suprimi-los, mas, tanto quanto possível, de controlá-los, regrá-los, mantê-los em equilíbrio, em harmonia, em paz.
A temperança é uma regulação voluntária da pulsão da vida, uma afirmação sadia do nosso poder de existir, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de nossos afetos e apetites.
(…) A temperança é a virtude que supera todos os gêneros de embriaguez, e deve, portanto, superar a embriaguez da virtude, e é aí que se aproxima da humildade”.
André Comte-Sponville, Pequeno Tratado das Grandes Virtudes (Ed. Martins Fontes)