Fui elogiada por “filtrar” pacientes de cirurgia estética, no consultório.
Acontece que não opero pouca estética porque não gosto das cirurgias ou das pacientes.
O que ocorre é que, infelizmente, 99% das pessoas que buscam a cirurgia estética não têm indicação para operar.
O que é ter indicação? Acho que já comentei sobre isso, aqui. Cirurgia bem indicada é aquela que respeita os limites da técnica e do corpo da paciente.
Querer que uma lipoaspiração emagreça uma pessoa obesa, é esperar da técnica além do que ela pode oferecer.
Operar uma pessoa fumante, emocionalmente instável, hipertensa, não é erro, mas operá-la sem antes compensar o organismo pode ser esperar demais dele.
Enfim. Por buscar ser médica antes de ser cirurgiã, recebi um sincero elogio de um colega.
E respondi:
É bacana isso, eu também acho. Exercer, em primeiro lugar, a medicina, e depois a cirurgia, se e quando necessária.
Mas, não é fácil.
Não sou de familia rica, nem pobre. Sou da classe média.
Assitindo à miséria que me rodeia, dou sinceras e repetidas Graças por ter onde morar, o que comer e o que vestir.
Mas, vendo alguns cirurgiões ralando até idade avançada em plantões enquanto tem uns garotos recém saídos da escola faturando alto, mas muito alto mesmo como um “fazedor de procedimentos”, não vou te dizer que nunca balancei, não.
tradutor badaud:
- fazedor de procedimentos = cara formado em medicina que obedece aos desejos das clientes, sejam eles cabíveis do ponto de vista medico ou não.
É mesmo um exercício de fé, ou de estoicismo, não ceder à tentação do dinheiro fácil.
Até mais ou menos 2005 eu agia conforme a ética e a consciência, mas tinha uma vozinha soprando “otária” no meu ouvido.
Nunca fiz uma cirurgia que achasse sem indicação, só pelo dinheiro.
Mas já cedi a trabalhar aplicando Botox, por exemplo.
Porque isso não é desonesto, nem picaretagem. Tem suas indicações.
Mas aprendi que não resolve ficar só aplicando Botox, pra faturar de verdade. Pra faturar de verdade nesse negócio, não sendo um figurão, precisa operar muita gente que, na minha opinião, não teria indicação.
Claro que não se pode generalizar, deve ter um ou outro cirurgião ganhando horrores só operando pessoas não obesas, equilibradas emocional e fisicamente. Mas não é a regra.
Daí que, de uns dois anos pra cá relaxei, e parei de me sentir otária por não buscar faturar alto de verdade com cirurgia.
Só hoje, depois de muitos anos de formada, sinto tranquilidade em relação a isso.
Mas foi preciso todo um amadurecimento, pra ter certeza de quem eu era e o que queria.
Hoje, vou ‘mantendo a forma’, porque é mais ou menos como uma ginástica moral: se relaxar, se ceder, enfraquece e lesiona.
É vigilancia constante, porque as tentações, as oportunidades pra sair da linha pululam.
De um lado, pacientes obesas, fumantes, ou em desequilíbrio emocional pedindo cirurgias.
De outro lado, colegas médicos que te olham de lado, com respeito profissional, mas sem aquele brilho que faísca nos olhares quando cercam, cheios de sorrisos, os garotos que faturam de verdade com cirurgia.
Não to dizendo que sou santa, ao contrário! Se fosse santa, não haveria tentação e tudo seria fácil.
Teve uma época em que eu cogitei largar a cirurgia, por causa disso.
Pensei em estudar medicina chinesa e sossegar num canto.
Mas, caramba, eu gosto de operar! E, eu sei operar.
Daí resolvi operar sossegada, num canto.
Agradecendo por conseguir prover o pão de cada dia com o meu trabalho.
Orando e vigiando, pra nunca sentir inveja daqueles que faturam alto, com cirurgia, e são cercados de glamour e paparicos.
Tens meu respeito e admiração por sua posição.
Pena que muitos não pensam assim.
Beijão
obrigada, querida
Bia,
Você é cirurgiã, médica, cidadã e uma pessoa exemplar, correta, trabalhadora, honesta e sensível.
No meu ponto de vista, não dá para se exigir mais do que isso.
E tem coisas que nem o dinheiro, nem o Mastercard compram! São as coisa mais valiosas, as que nos enriquecem o espírtio.
Bjks!
Edson, como sempre, você é muito gentil comigo, e eu adoro, obrigada! No entanto, me considero uma pessoa “em busca”, sabe. Não sou “produto acabado”, estou em pleno aprendizado. Tentando aprender com os erros, e ainda os tenho muitos! Claro. Entendi o que vc quis dizer, aceito e agradeço. Mas, sou tão cheia de erros, e nem me envergonho deles, porque ninguém nasce sabendo, mesmo. Me envergonharia se não estivesse em busca de melhorar. Sou igual a todo mundo, tentando sobreviver sem enlouquecer. Beijos!
Você já leu o livro “Aprendiz do tempo” (será que é esse mesmo o nome?), do Pitanguy? Ele cita casos como esses a que você se referiu, em que a pessoa insiste em passar por uma cirurgia que não é indicada e que nem ao menos respeita a conformação física dela…