Nem todos os cuidados com a aparência são sinal de psicopatologia, e é importante evitar o preconceito e a hipocrisia, neste sentido.
Existe um livro muito bom, chamado “A Lei do Mais Belo”, da Dra. Nancy Etcoff, que nos ajuda a entender alguns (na verdade quase todos) aspectos a respeito deste assunto.
- Nancy quem?
“Nancy Etcoff é PhD em Psicologia Clínica pela Boston University, concluiu pós-doutorado em Neurociência Cognitiva no Massachusetts Institute of Technology. É professora da Harvard Medical School e faz parte da equipe do Departamento de Psiquiatria, do Massachusetts General Hospital. Pesquisadora de renome, já recebeu vários prêmios por suas pesquisas”.
Vejamos alguns trechos do instrutivo livro:
“Tratamos a aparência não simplesmente como uma fonte de prazer ou vergonha, mas como uma fonte de informação . A nossa mente não foi projetada para diferenciar facilmente superfície e substância: lá no fundo, poucas pessoas acreditam que a relação entre as duas é acidental ou arbitrária.”
Nancy Etcoff afirma que “as pessoas tendem a ajudar pessoas atraentes, mesmo que não gostem delas. A beleza é uma forma de status, em nada diferente de ter nascido nobre ou ter herdado uma riqueza”.
Esta constatação é comprovada pelos resultados de alguns estudos (científicos, promovidos por diferentes universidades), citados pela autora:

a) pessoas pesquisadas fizeram esforços para ajudar pessoas bonitas, em detrimento de outras menos atraentes;
b) quando se pede a pessoas que se aproximem de um estranho e parem quando deixarem de se sentir à vontade, elas pararão a cerca de 70 cm de uma pessoa alta, porém, a menos de 30 cm de uma pessoa baixa.
Pessoas atraentes têm “espaços pessoais” maiores do que os das pessoas altas;
c) pessoas bonitas tendem mais a ganhar discusões e a convencer os outros das suas opiniões. As pessoas lhes contam segredos e revelam informações pessoais;
d) as pessoas em geral querem agradar àqueles que têm boa aparência, fazendo gestos conciliatórios, deixando-se convencer, e recuando para deixá-las passar quando andam na rua;
e) professores em 400 salas de aula nos Estados Unidos receberam cópias de um boletim escolar incluindo notas, avaliação de atitude, hábitos de trabalho e freqüência. A única variante era a fotografia da criança, que poderia ser menino ou menina, feio ou bonito. Apesar da riqueza de informações sobre o comportamento e o desempenho, a aparência norteou as opiniões. Os professores classificaram as crianças bonitas como mais inteligentes, mais sociáveis e mais populares entre seus pares.
A respeito deste último teste, segundo a autora, “(…) o mais perturbador é o fato de que as crianças bonitas freqüentemente conseguem as notas mais altas. [...] Curiosamente, apesar do estereótipo da ‘loura burra’, supõe-se que as pessoas atraentes dos dois sexos sejam mais, e não menos, inteligentes que as não atraentes”. (Etcoff, 1999, p. 61)
Ao analisar os dados do trabalho da Dra. Etcoff, percebe-se que, antes que se possa supor que a busca por uma forma harmoniosa seja fruto de deformações culturais, induzidas por consumismo ou outras interferências momentâneas, é interessante notar que, segundo o estudo, as preferências baseadas na aparência acontecem “da Austrália à Zâmbia“:
Em 1990, o psicólogo David Buss entrevistou mais de 10 mil pessoas de 37 culturas, de idades de 14 a 40 anos, sobre suas preferências de parceiros. No mundo todo, a gentileza foi uma qualidade bastante valorizada, mas a atratividade física e a boa aparência ocuparam o topo da lista das dez qualidades mais importantes e desejáveis.

Em seu trabalho, Etcoff explica que esta valorização da aparência não ocorre sem motivos. Os dois sexos importam-se tanto com a aparência visando a reprodução. Os sinais biológicos são “leituras” fáceis, e os belos traços nos humanos são uma linguagem direcionada à composição da próxima geração, à sobrevivência da espécie. Diz a autora: “A exibição sexual humana é projetada especificamente para inflamar nossos desejos, e aí está a explicação de seu poder assustador”.
Não resisto a trazer mais um trecho do interessantíssimo livro pra cá:
“(…) há uma realidade central na beleza, oculta nos constructos culturais e nos mitos. Todas as culturas cultuam a beleza, e em todos os lugares ela tem sido uma força poderosa e subversiva, provocando emoção, prendendo a atenção, e dirigindo a ação. Todas as civilizações perseguem-na a um custo extraordinário, e sofrem as conseqüências trágicas e cômicas dessa busca.
Hoje, há uma profunda insatisfação cultural focada na beleza, mas o negócio da beleza não mostra o menor sinal de abatimento. Uma busca tão ardente, tão cheia de riscos, tão insaciável, reflete a ação de um instinto básico.
O fundador da inteligência artificial, Martvin Minsky, acredita que a experiência da beleza é uma das maneiras de a natureza desligar temporariamente o repertório mental de “evidências negativas”. Com o cérebro crítico temporariamente desativado, não refletimos sobre a beleza, nem pensamos em outras coisas em sua presença.
Nossa resposta à beleza é uma artimanha de nosso cérebro, não uma reflexão mental. Achar belo o parceiro fértil e saudável e achar irresistivelmente engraçadinho um bebê impotente é uma reação adaptativa. A beleza é uma das maneiras de a vida se perpetuar, e o amor pela beleza está profundamente arraigado em nossa biologia.
Há algo em nosso amor pela beleza que é, como o crítico de culturas K. Fraser escreveu, “heróico, impotente e humano”.

Claro que a beleza visual não é a única maneira de emitirmos sinais evolutivamente importantes a parceiros potenciais. Existem a linguagem corporal, a voz, os cheiros, e até mesmo secreções de hormônios que não detectamos conscientemente. A aparência não é tudo, mas, persiste a questão de a beleza ser extremamente injusta. É um dado genético. E a beleza física nos diz pouco sobre a inteligência, gentileza, ânimo, senso de humor ou estabilidade da pessoa, embora acreditemos o contrário.
(…) As mulheres são muito recompensadas por sua aparência, e é natural que aí invistam parte de seus recursos financeiros. A idéia de que as mulheres realizariam mais se não perdessem tempo com a beleza é uma tolice. As mulheres farão mais, quando conseguirem direitos sociais e legais iguais, não quando deixarem a beleza de lado.
Mas, conhecimento é poder: quanto mais sabemos sobre a natureza humana, mais esperança temos de saber lidar com as desigualdades, e de mudar a nós mesmos. Nossa susceptibilidade não é motivo para nos afastarmos: nossos impulsos não são necessariamente bons, mas são resistíveis.
“Toda a honra e reverência à beleza da forma! Mas que amemos também essa outra beleza, que não está em nenhum segredo de proporção, mas no segredo da profunda simpatia humana” ( George Eliot ).
Não podemos esperar pela beleza, devemos trazê-la à tona.”
não sei… confesso que tenho um preconceito com pessoas fúteis e/ou que estão sempre preocupadas com aparência/que colocam botox/etc e tal. o preconceito é: acho eles menos inteligentes, menos interessadas em conhecimento, cultura…
gosto de andar limpinha, cheirosinha, passo creme no cabelo e de vez em quando algum tonificante no rosto ou alguma coisa para cravos, espinhas. base quase todos os dias (“úteis”) e às vezes rímel, brilho. como tenho situações em que estou no palco, aí sim… maquiagem pra valer. me acho normal… mas tenho visto cada vez mais gente MUITO mais preocupada com a aparência do que eu. inclusive minha dermato começou uma frase assim “tu, que não és muito vaidosa…”. e eu me achava vaidosa!
enfim, qdo ouvi essa frase, apesar da surpresa, confesso que senti como um elogio.
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Nessinha, uma pessoa pode ser muito interessada em obter conhecimento e ao mesmo tempo cultivar sua aparência! Uma coisa não é absolutamente antagônica da outra. O que eu digo é o seguinte: assim como é errado só se basear na aparência de uma pessoa, também me parece errado julgar alguém como fútil só porque esse alguém se cuida. São extremos indesejáveis. Você sabia que Herman Hesse, um autor literário respeitadíssimo, cultivava a boa forma física? Pois é. O bacana de a gente ir obtendo conhecimento é que cada vez menos a gente julga as pessoas, né. O objetivo não é apontar o dedo acusador, mas sim compreender o vasto leque de sentimentos e manifestações humanas, a fim de cada vez menos julgar, principalmente a nós mesmos! Beijos, querida.