Vi, na TVE, um rapaz negro, artista, sendo entrevistado por conta do dia… dia… não sei como chama, aqui no Rio disseram que era o “feriado do Zumbi”.
Seja o que for, ele mostrava um trabalho interessantíssimo sobre preconceito velado, “filtrado”, incorporado a expressões como “buraco negro” , ou “a coisa ficou preta” etc.
Eu sempre achei isso uma besteira, pra mim as expressões referiam-se simplesmente à cor, não às pessoas da cor. A mim soava como uma choradeira chatérrima, afinal era óbvio que as expressões nasciam do medo do escuro que quase todo mundo tem, em algum canto da imaginação.
Então, pra mim sempre foi isso, o que motivava as expressões. O rapaz, mostrando seu trabalho com voz mansa, explicava como que cada expressão fazendo associações negativas à cor preta traduzia uma depreciação nada velada aos negros.
Não deixei de achar que muitas pessoas falam do preto de forma pejorativa simplesmente por associá-lo à ausência de claridade e ao medo que fantasiam do que possa estar oculto pela falta de luz.
Mas pela primeira vez entendi que esta pode não ser a única leitura, e pela primeira vez tive uma certa empatia pelos negros que se sentem atingidos pelo que seria uma depreciação disfarçada de toda a sua cultura. Não deve ser fácil ignorar garbosamente o que bem poderia ser uma chacota, quando diariamente se é tratado com repulsa ou condescendência, não por todos, óbvio, mas seria hipocrisia tentar minimizar a destrutividade de um mero olhar preconceituoso na auto estima de uma pessoa. Imagina mil olhares, por uma vida inteira. Entendi que um ser em um ambiente sempre hostil passe a andar de antenas ligadas e defesas em punho.
Continuo achando que expressões ambíguas permitem que você as interprete como quiser, e seria muito menos cansativo se os negros optassem por não não entender a expressão “a coisa ficou preta” como ofensa pessoal.
Ainda assim, acho muito possível que vá gradualmente deixando de usá-la, por ter sido despertada para o fato de que a outra interpretação não é só uma choradeira de gente chata. Sei que preconceito não se cura com jogo de palavras, mas, se compreendi como uma expressão pode ferir, por quê usá-la?
Mas o que mais me impressionou, na entrevista, nem foi isso.
Foi o que o menino disse, no final. Ele disse que quem mais perde com o preconceito, são os preconceituosos, porque, agindo assim, estão deixando de ter a oportunidade de desfrutar da companhia e da amizade de tanta gente boa.
Simples, e essencial. Generosamente, ele ensinou a quem quisesse ouvir.
Tá, tem negros que não são gente boa, óbvio. E nem só contra negros há preconceitos. Mas não me interessam as obviedades.
Quando dei por mim e quis saber o nome do rapaz, a reportagem já tinha acabado.
Obrigada, moço, seja qual for o seu nome.
Bia, acho que há um certo exagero dos politicamente corretos. Tem expressões que, sem dúvida, demonstram o preconceito de quem as usa.Mas tem muita paranóia também.Então, quando um negro disser que “deu um branco” e não consegue se lembrar de alguma coisa, eu vou achar que ele tem preconceito contra os brancos? E se um jogador “amarelou”é preconceito também? Ainda bem que a cor vermelha salvou-se e podemos dizer que alguém ficou vermelho de vergonha porque está na cara e não estamos ofendendo ninguém. Ah, o verde também está salvo:) Não se diz (ou dizia, antigamente) que alguém ficou verde de inveja? Que os marcianos não nos ouçam:) Dizem que eles são verdinhos:))) Ah, e os fantasmas não são brancos? Preconceito contra os brancos?
Acho uma bobagem esse negócio de afro-descendentes.
E branco é o que? Euro-descendente?
Concordo com você sobre “a coisa ficou preta”. Os negros deveriam aprender, sim, que o preto é uma cor e que eles não podem apropriar-se da palavra preto como se ela se referisse apenas à cor de sua pele. Como os brancos também não podem apropriar-se da cor branca da mesma forma.
Mas é a tal coisa: os negros foram (e são) tão agredidos que ficam sempre na defensiva.
Beijos.